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agosto 20, 2007

L.U.S.T. (13)

Hoje mais um estonteante, instigante e meliante capíluto de L.U.S.T., agora pratrocinado por Ordem Rude Productions LTDA.

Frase do dia: Não esquente a piriquita com pau fino.


L.U.S.T.

Nícolas Dias


Capítulo 13


Se você passa uma noite preso, não recomendo que você durma. Se dormir na prisão você vira mulherzinha. Eu ainda tive sorte ter sido preso com pessoas que eu conheço. Peraí, eu não to falando que ser violentado por pessoas que eu conheço é bom. Estou dizendo que eu tive sorte que de os caras que estavam na cela comigo não queriam me fazer de boneca inflável, mas apenas de saco de pancadas.

Eu só tive que passar a noite na delegacia por que o policial só teve a brilhante idéia de me ouvir e olhar na minha mochila pra ver que eu não tinha nem um narcótico e muito menos dinheiro. Sem os quais é impossível fazer comércio de entorpecentes.

Quando me levaram eu fiquei mais agoniado por que não sabia quanto tempo ficaria lá. Eu tinha que voltar ao trabalho e tinha que falar com a Melissa. A única preocupação que sumiu foi a de pagar as contas. Só o telefone e a luz somavam 1.111 Reais. Um atrás do outro, o número da suruba gay.

Meus colegas estavam pretendendo me encher de porrada há um bom tempo, mas não foi dessa vez. Bom, eu só escapei de ser surrado pelos meus colegas por que tinha outro colega meu que estava merecendo mais ainda uma surra: o doido que deixou o segurança abrir a mochila cheia de ecstsy.

Os caras começaram a vir pra cima de mim com aquele velho papo de me espancar.

- Agora é a hora de tu apanhar! – um deles diz.

- Se ele não tivesse gritado como uma menina, e chamado a atenção do guarda, agente não taria aqui! – diz o cara que apertou meu ombro, que é o mesmo que deixou o guarda abrir a mochila.

- Peraí, gente! Mas foi tudo culpa dele! – eu digo apontado pro cara da mochila.

E os outros olham pra ele dizendo “é mermo, foi ele!”. Se ele não tivesse se apurrinhado e gritado quando eu falei isso os doidos não teriam ido cima do cara, e se ele não tivesse empurrado os caras, eles não teriam enchido ele de porrada. Ainda me deu vontade de dar uns chutes na costela dele quando ele caísse no chão e de cair em cima dele com o cotovelo quando ele perde a consciência, mas eu preferi ficar quieto já que, por qualquer coisa, eu poderia ser o próximo.

Fora a aparição de uns repórteres do Metendo Bronca pra interrogar um rapaz que negava ter matado a namorada, dizendo que ela tinha cometido suicídio dando em si dezessete facadas, sendo quinze no peito e duas nas costas, e que ela tinha forçado ele a vestir roupas de mulher antes do suicídio, o que explicaria a forma como ele estava trajado; a minha estadia na delegacia foi normal, pra uma estadia em uma delegacia.

Sem falar na dificuldade de fazer as necessidades fisiológicas, cagar.

Quando se é preso você tem direito a uma ligação. Isso é bom quando se tem uma agenda, um celular com agenda, ou alguma coisa assim, ou quando você sabe o número de alguém que pode te ajudar. Mas o único número que eu sei é o de lá de casa, e infelizmente a única pessoa que eu posso falar lá em casa é o Rodolfo. Mesmo assim é melhor que nada.

Eu disse que queria dar um telefonema, e os outros logo se teleguiaram.

Um dos policias que estavam na delegacia era todo certinho e resolveu chamar a gente em ordem alfabética pra telefonar. Se não fosse ele ninguém ia telefonar.

Ele chamou primeiro o cara que tava desmaiado. Se chamava Alejandro. Ele saiu mancando.

Quando ele voltou era a minha vez. O policial abre a cela e diz pra eu ir. Enquanto estou saindo o Alejandro vai entrando e me fala baixo como se fosse pelo menos um pouco ameaçador.

- Vai ligar pra mamãe, é? – coisa que ele deve ter feito.

Não é legal mexer com a mãe de quem não tem mãe.

Esses moleques só precisam falar com seus pais ricos e pedirem ajuda que eles mandam os advogados e essas coisas. Pra tudo se dá uma merda de jeitinho brasileiro pra quem tem dinheiro. Sou mais o jeitinho iraqueano, de mandar as pessoas se explodirem. E o bom de lá é que elas obedecem.

Eu pego o telefone e disco o número de casa. Os dois policiais ficam me reparando, um olhando torto e o outro esperando pacientemente.

Quando eu termino de discar, o telefone dá sinal de ocupado. O Rodolfo deve estar de novo na internet, vendo sacanagem no orkut, como eu falei pra ele fazer, pra não pegar vírus.

Pois é, esse direito de ligação só é útil quando se sabe o telefone de alguém ou se anotou numa agenda, celular ou... na mão.

Então eu me lembro que antes de sair da Unama eu peguei o telefone da melissa e anotei na mão. Se tivesse anotado nos papeis que eu tinha, o número estaria dentro da mochila junto das provas do crime que eu não cometi.

O telefone ta meio apagado por causa do suor, mas é melhor do que ligar pro Pop Pizza. Malditos comerciais com musiquinhas que não saem da cabeça.

Eu ligo pra casa dela, o telefone chama algumas vezes, e quem atende é a Katerine. Ela não pode saber que eu é que estou ligando, se não ela pode falar mal de mim pra Melissa. Não é que eu tenha desistido da Katerine, mas eu não quero perder a chance de pegar a irmã dela.

Digo disfarçando a voz que eu gostaria de falar com a Melissa. Se o telefone daqui não estivesse uma bosta, ela ainda poderia ter reconhecido minha voz.

Ela grita ao telefone chamando a Melissa e quase me deixa surdo do lado direito.

Melissa atende e, quando eu respondo, ela fala o meu nome.

- Davi! – se a Katerine ouviu isso ela deve ter ficado mordida.

Ela pergunta se eu não ia ligar pra ela amanhã.

Eu digo, sem querer parecer desesperado, que eu preferi ligar hoje mesmo. Digo também que não posso demorar muito por que estou meio ocupado. Se ela achar que eu parei de fazer algo importante pra ligar é lucro pra mim, eu acho. Até por que ela não vai saber que a única coisa que eu poderia ter parado de fazer aqui era de ser moído no soco.

Ela pergunta se a gente vai sair amanhã.

Mesmo duvidando que eu estivesse andando livremente no dia seguinte, eu digo que é.

Ela pergunta pra onde a gente iria.

Mesmo duvidando que eu saísse tão cedo daqui, eu acho melhor eu decidir pra onde ir, pra que não acontecesse como aconteceu com a Katerine. Mas antes que eu diga alguma coisa ela fala pra gente ir ao shopping.

Ela pergunta pra qual shopping a gente iria.

Mesmo duvidando que eu não estivesse aleijado no dia seguinte, já que eu ia passar a noite inteira preso com meus colegas e um assassino pervertido, eu acho...

Ela diz pra irmos pro Iguatemi.

Ta bom. Lá é grande, e é claro, tem bebedouros pra beber água de graça.

- Ta bom, então ta marcado – ela diz. – Agora eu tenho que ir. Tchau!

No telefone a gente nem mostra a cara, mas eu sorrio só com o lado direito do rosto.

Eu digo tchau.

A ligação que eu deveria ter usado pra chamar um advogado eu uso pra marcar um encontro que talvez eu não possa ir.

Alguns dos meus colegas saíram de lá no mesmo dia. Outros desses otários também têm famílias que nem ligam para eles. Se bem que eu acho que os pais deles só os tiraram de lá pra não queimar o nome da família.

Eu só passei a noite lá por causa da incompetência dos policiais. Nós só fomos oficialmente detidos no início da noite, e eles só foram dar uma olhada nas provas no outro dia.

Eu dizia que era inocente, que tinha sido um engano, que eu tinha que voltar pro trabalho, mas só por que os lesos ficavam com frescura dizendo que iam mandar processar todo mundo, pois não deveriam estar presos, o policial respondia pra mim com algumas pornofonias.

Lá estavam um policial escroto e outro certinho. Como sempre. Mel Gibson e Danny Glover. O almofadinha estava furioso por que sempre sumiam coisas da gaveta dele. A coisa se repetiu tantas vezes que ele fez questão de prestar queixa sobre os furtos que aconteciam dentro da própria delegacia. Ele disse que se não devolvessem aqueles brigadeiros ele ia fazer justiça com as próprias mãos.

Eu preferi não dormir, pois minha integridade física poderia ser violada de várias formas ao menor cochilo, principalmente pelo cara vestido de mulher.

Talvez eu nem conseguisse dormir com dor nas costas por causa da minha coluna torta.

Até o amanhecer eu fiquei encarando todo mundo na cela. Os meus dois colegas que continuaram presos ficavam encarando, com os olhos arregalados, o cara de vestido. O cara ficava me encarando com uma cara estranha não sei por quê. E eu, pra não olhar pra ele, ficava encarando os meus colegas. E eles de vez em quando olhavam pra mim e levantavam o queixo, fazendo o sinal universal do “O que é que tu ta olhando?”.

Por volta das cinco da manhã, o Almofadinha está quase pra pegar um durex e pregar uma ponta na pálpebra e a outra na nuca. Quando ele pega no sono, o Escroto se levanta de onde estava, vai até a mesa, dá uma olhada na gaveta do Almofadinha, e depois vai olhar as provas.

Ele pega a faca que o doido usou pra suicidar a namorada, e depois mexe nas mochilas. Elas estão todas lá. Quando ele abre a minha mochila, o Almofadinha acorda.

O Almofadinha pergunta o que ele está fazendo. E depois responde a própria pergunta dizendo, tu ta mexendo nas provas, desgraçado.

O Escroto diz que ele só estava verificando.

- Verificando? Foi bem tu que mexeu na minha gaveta, né? – disse o Almofadinha. – deixa eu ver se não ta faltando nada no meio das provas.

Ele vai e olha na mochila.

- Cadê a droga daqui?

E o outro diz que não tirou nada da mochila.

O Almofadinha pergunta cadê, então.

Eu digo, era isso que eu tava tentando dizer desde ontem, eu não tenho nada a ver com isso, me pegaram de laranja, eu.

Esse último “eu” saiu sem querer.

O Escroto diz, rapah, esse é o comprador, por isso não tem nada na mochila.

E o Almofadinha pergunta, onde é que ta o dinheiro então.

Eu digo que eu já falei que foi um engano.

O Escroto olha pro Almofadinha e diz, ei, olha onde o moleque estuda, ele tem grana, mesmo ele podendo ser culpado, é melhor a gente soltar ele.

Deus abençoe o preconceito.

O Almofadinha concorda.

Eles me soltam e devolvem minha mochila.

Eu poderia até mandar soltarem os meus colegas, do jeito que os policiais queriam evitar problemas, mas eu acho que eles merecem ficar lá mesmo.

Eu saio na rua de madrugada, na hora que os primeiros ônibus estão saindo. Quase na hora de eu ir pro trabalho. Nessa hora eu já começo a me preocupar em não perder meu emprego pra poder pagar minhas contas.

Com certeza eu vou ser chamado a atenção no trabalho. Ainda mais por que eles estão cortando gastos, pra fazer algumas mudanças. O filho do dono quer fazer umas mudanças lá, ele assumiu a gerência por que o pai dele ficou doente depois de comer alguma coisa estragada ou algo assim. (Ver capítulo 10)

Os vendedores de bombons não entram no ônibus a essa hora, mas eu viajo de graça pra variar.

Algumas pessoas compram bombons. Alguns que estão saindo de casa pro trabalho e se esqueceram de escovar os dentes, e alguns que estão voltando pra casa depois de comer a mulher de alguém.

As pessoas me desprezam, não por que eu fui prezo, mesmo que só por uma noite, mas por que eu estou com os olhos vermelhos como os de um birrado e estou mal vestido. Se eu pedisse um emprego agora ninguém me daria, não porque fui preso, mas por que estou vendendo bombons.

Vou pra casa só tomar um banho de gato pra ir pra panificadora. Chegando lá, quando vou colocar minha mochila na mesinha da sala como eu sempre faço, a mochila cai no chão. É aí que eu percebo que o quitinete mobiliado que eu alugo não está mais tão mobiliado assim. Os móveis que não eram meus não estão mais lá.

- Rodolfo, onde ta a mesa daqui? A poltrona? E... cadê a minha cama?!

- Não te preocupa o colchão ainda ta aí. – ele diz como se tivesse resolvido tudo.

- Como assim? O que foi que aconteceu, cara?

Ele diz pra eu não me preocupar que ele ia recuperar os móveis. Diz que estava fazendo negócio com os caras lá da Unama, que já tinha dado o dinheiro pra um deles, que foi buscar a parada com os outros lá fora. E diz que quando eles voltaram, ele me viu lá com eles.

- E vocês foram pegos – ele continuou. – Eu tinha que levar a parada pra um cara pra pagar um favor que eu tava devendo pra ele – nunca fique devendo favores a ninguém. – como não tinha o produto eu tive que dar dinheiro. Mas eu não tinha dinheiro, aí eu tive que vender algumas coisas.


Continua...

agosto 07, 2007

L.U.S.T. (12)

Depois de muito tempo parado(13 meses e 7 dias pra ser exato[e chato]) L.U.S.T. está devolta
mais Legal,
mais Urticante,
mais Sem noção,
mais Tebudo!
Continue agora com as desventuras de Davi em sua magnífica, maravilhosa e maldita jornada.

Anteriomente em L.U.S.T.:
Uma geral... Davi perdeu a bolsa do Proune, perdeu a mãe, perdeu a vergonha e foi trabalhar. Ele divide um quitenete com o Rodolfo, que fez ele perder a tal bolsa. Tá cheio de comtas pra pagar. Reencontrou a mulher amada pelo orkut, e também conheceu sua irmã gostosa. Mas ele fez merda com a mulher [em parte, literalmente].

Infrmomação adicional: dá pra fazer Napalm com gasolina, ração granulada pra gato e Tampico.

L.U.S.T.

Nicolas Dias


Capítulo 12

Dizem que ser fumante passivo é pior do que ser efetivamente fumante. Então, depois de quase um mês trabalhando na panificadora, eu resolvi começar a fumar em vez de ficar só respirando a fumaça dos cigarros do Fábio. O que é um peido pra quem já ta fudido?

Tenho certeza que meu pai fumava. Acho até que podem ter sido os cigarros dele que ajudaram a minha mãe adquirir aquele câncer-surpresa que a matou. Meu pai e meu avô fumavam. Então minha mãe é fumante passiva desde criança.

Meu pai fuma e minha mãe é que morre de câncer. Desgraçado.

Eu sempre tive vontade de fumar, mas eu queria pelo menos uma desculpa pra começar.

A verdade é que eu sempre fui acanhado demais. Sempre tinha que arranjar uma desculpa pra fazer o que eu mesmo queria. As pessoas geralmente usam a desculpa: “Ah! Todo mundo faz!”. “eu vou fumar, todo mundo fuma!”. Pra mim, essa desculpa não serve.

Para poder falar com a Katerine eu tinha que ir até a Unama. Mas eu precisava de uma desculpa pra ir até lá.

A minha desculpa pra ir lá é que eu vou pegar umas apostilas que eu mandei imprimir pra eu estudar pra um concurso público que talvez eu faça.

Na Unama os alunos têm direito de imprimir trinta folhas de graça. Só que como os meus colegas eram na sua maioria playboys e patricinhas, eles não usufruíam desse direito. O que eu fazia quanto a isso? Eu imprimia pra mim as folhas deles.

Na verdade eu tenho que ir lá por que eu preciso me desculpar com a Katerine o mais rápido possível. Mas dessa vez sem a “ajuda”, ou o estorvo, do álcool.

Eu tiro o maldito avental e o uniforme e apago o cigarro. Saio como se não tivesse nada pra fazer. É meio-dia, não é muita gente que compra pão a essa hora.

Eu pego um ônibus direto pra Unama. Ela vai sair da aula lá em alguns minutos. Eu viajo de graça como sempre. No começo eu ficava com um pouco de vergonha de fingir estar vendendo doces no ônibus, mas eu parei de me importar com os passageiros quando percebi que eles não se importavam comigo.

Eu imprimia e, algumas vezes, vendia as folhas pra eles como apostilas com o assunto das matérias das provas.

Pra isso eu só precisava saber as senhas deles. Pra poder usar a internet na lá só é preciso se cadastrar dando o número de matrícula. Aí eles dão uma senha pra os alunos poderem fazer login. Com isso já dá pra usar a internet e imprimir no nome do dono da matrícula.

Chegando lá eu vou pegar as apostilas na sala de informática. Por sorte eu não encontro ninguém que era da minha turma. De lá eu vou para o bloco F, da área de saúde, e do curso de Fonoaudiologia.

Na época que eu estava estudando, como a representante de turma era irresponsável demais pra ficar encarregada das cópias, era eu o responsável por tirar xérox das apostilas que os professores passavam pros meus colegas. Sempre tem um otário pra isso. Aí eu escaneava em casa as apostilas, no meu computador, que na época era novo, e mandava imprimir na conta dos meus colegas. Depois entregava pra eles, e ainda cobrava dez centavos por cada folha.

Hoje, eu só preciso pedir desculpas pra Katerine pelo modo como agi da última vez em que nos encontramos. A bebida me ajudou com minha timidez, mas me atrapalhou na hora de não pegar nos peitos dela e de não falar besteira.

Ela vai ter que me entender. Ela também já ficou porre antes.

Foi fácil conseguir o número de matrícula dos meus colegas pra imprimir. No início do semestre o nome de cada aluno fica escrito na porta das suas salas. Na porta da minha sala tinha o nome de todos os meus colegas. E logo depois do nome, o número de matrícula de cada um.

Eu só tive que me cadastrar usando a matricula deles. O cara que faz o cadastro nem presta atenção pra nossa cara mesmo. Ele fica ocupado demais falando com outras pessoas no MSN enquanto trabalha.

Com vinte cadastros diferentes dava pra imprimir seiscentas folhas por mês. Dava pra imprimir apostilas, revistas, livros.

Lá eu vou pro terceiro piso do prédio, onde ficam as salas do curso dela. Que era o meu curso.

No corredor do segundo andar, eu encontro sentada sozinha em um banco, da cabeça baixa, trajando um uniforme do Cesep, Melissa. A irmã inocente e gostosa da Katerine.

Me aproximando, dá pra perceber que ela está me olhando com a visão periférica. Como se soubesse que eu estava lá, mas não queria que eu soubesse que ela sabia ou não queria que eu estivesse lá.

Eu digo, oi, Melissa.

Ela responde fingindo estar surpresa, e fala o meu nome em forma de pergunta pra confirmar se está certo. Eu digo que está.

- Me chama de Mel.

Tudo bem, docinho – Ainda bem que eu não disse isso.

Ela diz que as amigas dela a chamam assim. Ela quer dizer que eu sou como uma amiga pra ela? Bom, ela me disse que era lésbica, eu acho que não faz diferença pra ela. Ou faz?

- Então ta, Mel... O que você está fazendo por aqui?

Ela faz “hum”, como se estivesse dando um tempo pra dar uma boa resposta, e diz, “Eu estou esperando a minha irmã pra gente ir embora juntas”.

Ela está falando de forma diferente da qual falou no aniversário, isso me faz ficar em dúvida se ela tomou alguma bebida alcoólica naquele dia. Não, não. Ela parece criança demais pra beber.

- E vocês vão de ônibus?

- De carro.

Seria muita cara-de-pau minha pedir carona do jeito que a Katerine ta mordida comigo.

Eu me sento do lado dela.

Só pra não ficar calado, eu pergunto há quanto tempo ela está esperando.

- Uns quinze minutos desde que eu saí do colégio. O que tu veio fazer por aqui?

Não sei por que, mas não quero dizer que eu vim falar com a Katerine.

- Só vim dar uma volta ver o pessoal das antigas.

Nessa hora passa um colega meu e eu cumprimento ele com um “e aí!”. E ele me olha com o rabo do olho como se tivesse querendo chutar o olho do meu rabo.

Eu prefiro abaixar a cabeça do que ter a possibilidade de ter o rabo chutado.

- Você é popular, hein! – ela diz sorrindo.

Vendo que eu não tinha envergadura para puxar nem um assunto, Melissa pergunta por que eu parei de estudar.

Apesar de ser diferente da Katerine, Melissa também parece ser um pouco patricinha. Se eu disser que parei por que nunca tive dinheiro pra pagar a universidade, já vai haver uma pequena rejeição a mim da parte dela, que pode facilitar outras rejeições futuras.

- Minha mãe morreu – eu digo.

Ela me olha com cara de “ahhh! Tadinho!”.

- Desculpa eu ter perguntado – ela puxa minha cabeça e abraça junto do pescoço dela, como se tivesse pedindo pra eu chorar no seu ombro ou tentando esconder que estava quase chorando, ou até mesmo, escondendo o rosto pra fingir estar triste.

Eu digo que não tem problema.

Ela diz que acha bonitinho eu dar um tempo nos estudos em luto pela minha mãe. Se ela soubesse que eu não parei por um tempo e que não foi por que estou de luto, mas sim por que ela me mandava dinheiro pra morar sozinho enquanto eu estudava de graça, ela não teria essa reação. Então é melhor que ela não saiba.

- Você mora com o seu pai? – ela pergunta.

- Não. Ele já não morava com agente há alguns anos.

- Nossa! Que barra, hein! – esse maldito linguajar de “Malhação”.

Eu digo que não tem problema, que se eu estivesse morando com ele eu certamente estaria com algum problema no pulmão como provavelmente a minha mãe teve.

- Mas está tudo bem – eu continuo – agora eu estou dividindo o meu apartamento com um colega meu que foi expulso de casa.

Isso me faz parecer um santo.

- Poxa! Você é bem legal, hein, Davi!

- Ahh! Que é isso?... – falsa modéstia por uma coisa que eu fiz que nem é boa.

É melhor eu sair enquanto estou ganhando. E antes que a Katerine apareça. Se não ela pode estragar tudo.

E antes eu meus colegas, que eu dava cola, também saiam e queiram me espancar na frente da Katerine e da Melissa.

- Bem. Eu já tenho que ir.

- Já? – uhh! Ela queria que eu ficasse mais um pouco. Esse “já?” foi quase como quando acabam as entrevistas no Jô Soares. – foi bom falar contigo.

- É? Então agente se fala de novo.

- Então bora marcar pra sair.

Opa! É assim agora?

Eu digo que ta bem. Ela me dá o telefone dela.

Agora a pergunta que não quer calar. Se eu fizer agora a pergunta ela vai perceber que rolaria alguma coisa entra nós dois. Então se eu perguntar agora e ela responder o que eu quero ouvir e com bom humor, quer dizer que ela está afim de alguma coisa.

- Vem cá. Você é mesmo lésbica?

Ela dá um sorriso com a cabeça meio baixa, olha pra mim e diz que não.

Beleza!

- Te ligo amanhã, então! - eu digo.

Eu me despeço da Melissa e desço pra ir embora.

Quando estou quase na porta, para minha surpresa, aparecem os meus colegas que queriam arrancar minhas bolas por causa do zero que eles tiraram.

Por causa daquele zero, eles ficaram reprovados. E a matéria que eles ficaram era pré-requisito pra matéria que eles deveriam estar vendo nesse momento. Como eles não passaram, não podem fazer essa matéria. Por isso eles saíram mais cedo.

Um deles me segura pela parte de trás de pescoço e aperta. Outro põe a mão no meu ombro e empurra pra baixo.

- Ê, rapah! Temos um assunto pra terminar – ele diz.

- Tu sabe qual é a diferença entre o leão e o viado? – o outro diz fazendo aquela brincadeira de criança.

Eu respondo que o viado gosta de pegar no ombro do leão. (pra quem não sabe a pessoa se a pessoa responde “não”, quem põe a mão no ombro diz “é que o viado deixa o leão botar a mão no ombro dele”.)

Ele aperta o meu ombro enfiando os dedos debaixo da clavícula. Como se eu fosse a porta de um Fiat Palio.

- OUTCH!!!(como se alguém desse um grito de dor assim)

Os caras estão me segurando igual os garotos fazem no colégio. E assim como no colégio, o segurança aparece (mas no colégio quem aparece é o porteiro ou o cara da cantina).

Ele primeiro fala pra gente parar de fazer o que está fazendo e depois pergunta o que a gente tava fazendo. Se a coisa fosse mais séria ele primeiro atiraria e depois perguntaria.

Os caras ficam todos agoniados e respondem educadamente. Obviamente tentando evitar ao máximo qual quer contato com o segurança.

Com certeza ele percebeu essa reação estranha deles.

Desde antes de eu sair, havia boatos de que acontecia de tudo nos banheiros e nos corredores da daqui, desde pedofilia e rituais macabros até recitais de poesia e comercio de drogas.

Ele fica desconfiado e pergunta de novo o que agente tava fazendo, como se eu quisesse estar no meio daqueles caras.

Playboys universitários, geralmente, não usam mochilas. A menos que queiram esconder alguma coisa ou guardar a maquiagem, o que não acontece muito.

- Posso dar uma olhada na sua mochila? – o segurança pergunta pra um dos meus colegas.

O cara sabe que se não deixar o segurança ver a mochila ele vai ficar mais desconfiado ainda. Ele fica sem reação, mas deixa o segurança olhar.

Nessa hora, na outra entrada, pra qual o segurança ta de costas, o Rodolfo aparece. Vendo aquela situação empiriquitante, ele, com os olhos arregalados, passa a mão na testa e depois no cabelo, e faz os mesmos movimentos labiais que os jogadores de vôlei do Brasil fazem quando erram alguma bola.

O segurança pega a mochila do meu colega, abre e tira de lá um saco cheio de ecstasy.

Nessa hora, Rodolfo, que também estava com uma mochila, diz só com o movimento dos lábios, “Merda!”, e vai embora disfarçadamente.

Infelizmente eu também estava de mochila, onde eu levo os doces.

Um segurança não é exatamente um policial, mas ele pode chamar a polícia. Ele, com um saco de ecstasy na mão, aponta pra todos nós e diz:

- Vocês vão todos pra delegacia!



Continua...

se gostou comente. se não gostou, tambem.
dá um incentivo.

junho 30, 2006

L.U.S.T. (10, 11)

Anteriorment em L.U.S.T.:
Ah! se vocês estão lendo isso, é por que ja devem ter lido o resto. se virem.

L.U.S.T. é patrocinado por Guaraninto, o guaraná que cresce os ovos.



L.U.S.T.

Nicolas Dias


Capítulo 10

Dizem que uma boa maneira de curar ressaca é continuar bebendo.

Na panificadora, enquanto eu corto a massa e ponho no forno, como não tem ninguém supervisionando, eu fico bebendo um pouco.

Corto a massa, espirro nela e ponho no forno. Por causa da chuva que eu peguei naquela maldita festa, estou resfriado.

Pra tirar a massa do forno uso a luva de esquimó.

Nos supermercados não se fazem mais pães artesanalmente. Eles compram o pão quase pronto congelado e só fazem levar ao forno por uns dez minutos. Enquanto aqui, com a fabricação artesanal de pão, leva mais ou menos umas quatro horas pra ele ficar pronto.

Além de não precisar da mão-de-obra especializada pra fazer a massa do pão, não é necessário muito espaço. Só é preciso de um lugar pra guardar os pães congelados e os fornos.

Isso é uma evolução na indústria, muito mais rápido e barato. Mas o dono do lugar é um cara tradicional. Prefere fazer o pão artesanalmente. E isso bom pra mim, já que, como em todo processo de evolução da indústria, as pessoas acabam perdendo os seus empregos. Eu, pra manter meu emprego prefiro que ele continue fazendo e vendendo pão do modo menos lucrativo.

Enquanto isso Rodolfo foca querendo que câmeras de vigilância sejam instaladas no local. Mais uma evolução no trabalho para o desprezo dos humanos.

Eu bebo mais enquanto espero o pão ficar pronto.

Essa panificadora é uma daquelas onde se vendem várias coisas desnecessárias, mas que as pessoas compram. Coisas sem nenhum valor nutritivo como salgadinhos, refrigerantes e xaropes, e coisas que podem causar câncer como cigarros e Q-suco.

De vez em quando a gente tem que dar uma olhada nas prateleiras pra botar tudo em ordem.

Quando eu vou supervisionar os produtos, eu pego e escondo no bolso alguns confeitos de bolo e outros doces pequenos. O açúcar corta o efeito do álcool, suar também. Enquanto bebo, fico comendo doces perto do forno. Ingerindo açúcar e suando pra não ficar tão porre. Não sei se espirrar ajuda, mas eu espirro também.

Quando os pães ficam prontos, eu os tiro da forma e ponho no balcão. Espirro em cima dos pães carecas antes de chegar lá. Eu digo pro Fábio que está atendendo os clientes que ele pode ir lá pra dentro. Ele entra acendendo um cigarro. Eu fico pra entregar o pão cheio de vírus para as pessoas.

Elas pegam o pão e agradecem.

O dono daqui não tem culpa de vendermos esse pão contaminado pros clientes. Assim como o criador do orkut não tem culpa de que, lá, pessoas ponham pornografias ou marquem festas para vender produtos perniciosos.

O dono da panificadora chega pra pegar uns pães como de costume. Apesar da cara de doente, ele vem sorridente e diz:

- Bom dia.

- Bom dia, senhor. Tudo bem com o senhor? – eu falo por educação.

- Na verdade, não estou muito bem. Esses dias eu tenho estado com um mal-estar e hoje me deu uma dor de barriga. Deve ser uma dessas viroses novas.

Acho que ele pensou que eu queria mesmo saber como ele estava. Dados os sintomas, se ele comeu daquele pão de duas semanas atrás, do meu primeiro dia aqui, com coliformes fecais, ele pode estar também com amebíase, giardíase, febre tifóide, hepatite infecciosa ou cólera.

- E o que o senhor vai querer? – eu digo.

- Me veja oito carecas e dois massa-finas.

- Sim senhor – tu gosta de um careca, né? – Aqui está. Oito carecas e dois finas.

Além de ele estas com uma possível febre tifóide, eu ainda dou pra ele um saco de pães cheios de vírus da gripe.

Capítulo 11

Internet discada é uma merda.

O bom de ver pornografias no orkut, é que não há risco de pegar nenhum vírus como há nos sites. E é ainda melhor quando essas pessoas sabem que estão sendo vistas. Algumas gostam tanto da idéia que, periodicamente, colocam novas fotos pra agradar seus visitantes desconhecidos.

Tem uma pessoas, não vou citar nomes, que sempre que eu vou procurar pornografias, eu começo entrando no perfil dela. Eu não a adicionei, mas ela está nos meus favoritos. Mesmo assim, me sinto mais íntimo dela do que dos meus próprios amigos.

Eu vou no perfil dela e olho os “amigos”: “casal_quente”. “morena”, bundinha_gulosa”, e por aí vai. Ela tem quase mil amigos só desses.

Eu acho que, de tanto eu entrar lá, ela fica empolgada e toda semana ela acrescenta novas fotos. Novas poses, novos cenários, novos brinquedos sexuais.

Mas quando você vai investigar as pessoas que te conhecem, não é bom que elas saibam que você está observando.

Você vai nas configurações, desativa as visualizações de visitantes do perfil, e você pode bisbilhotar seus “amigos” tranquilamente. Assim você não sabe quem o visitou, mas as pessoas não sabem quando você as visita.

É isso que eu faço quando visito o perfil da melissa. Eu olho as fotos dela. Vejo os scraps que mandaram pra ela. E até vejo se ela respondeu os scraps.

Eu dou também uma olhada no perfil da katerine. E vejo, nos seus scraps, que Rodolfo a convidou pra mais uma festa.

Enquanto estou no computador, Rodolfo está na minha cama falando merda. Hoje é dia de folga pra ele. Com suas pernas pra cima, e a região lombar encostada na parede, apoiado nos cotovelos, ele tenta aproximar seu rosto da região pubiana. Ele diz:

- Davi, tu já conseguiu chupar o teu próprio pênis?

- Não!

- Nunca conseguiu?

- Eu nunca tentei, cacete!

- Ei, cara. Não precisa ficar envergonhado. Pode me contar os seus segredos mais obscuros. Eu, por exemplo, eu gosto de...

- Ei, ei, ei! Para com esse papo. Eu não quero saber dessas coisas. – eu saio para a cozinha.

- Mas eu só ia dizer que...

- Não, não, não! Eu não quero saber!

- Então ta – ele se levanta e vem pra cozinha também.

A cozinha está toda bagunçada. Estaria mais bagunçada se tivesse mais o que bagunçar.

Eu abro a geladeira pra ver o que comer.

- Cara, eu estive pensando... – diz ele como se fizesse isso. – ia ser bom se a gente arrumasse uma câmera digital pra tirar fotos nas festas e divulgar melhor no orkut.

- Um negócio desse é caro. Se tu quiser comprar, compra.

- Não não, vai sair baratinho. Um cara que eu conheço ta afim de vender uma, mas ele diz que tem que ser logo. Aí a gente divide a despesa.

- Ta. Mas eu fico com uma parte dos lucros, hein.

- Pode deixar.

Eu pego um pedaço de carne que está literalmente dando sopa. Uma sopa que eu fiz pra curar uma ressaca. Antes de colocar a carne na boca, ela cai no chão ainda perto da geladeira.

O que não mata engorda.

Eu me abaixo pra apanhar o pedaço de carne, quando eu pego, vejo que em baixo da geladeira tem uma correspondência. É uma conta de telefone. Eu pego e vejo, pela data, que já chegou há uma semana.

- Pô, Rodolfo1 olha isso aqui. Essa conta já chegou faz uma semana. Por que eu não sabia disso?

- Foi mal. Eu acho que eu deixei cair no chão e ela foi parar aí em baixo.

- Foi mal...

Eu abro a conta.

- O quê?! Mil paus de telefone?! Isso deve ta errado.

Rodolfo olha pra mim com uma cara de culpa e tenta dizer:

- Eh.. eh...

- Como é que pode uma conta dessas?

- Eh... Davi... é que... eu usei um pouco o telefone. Na verdade eu usei a internet. Mas eu não acho que a conta veio alta por que eu usei.

- E quantas vezes tu usou?

- Na verdade eu usei todos os dias quando tu tava no trabalho.

- Merda Rodolfo! Tu usou todo dia? É por isso que a conta veio alta.

- Foi mal.

Eu volto pro quarto pra desconectar da internet que já tinha me dado três mil reais de prejuízo. E o Rodolfo chegou pra morar aqui na metade do mês passado. Já fazem umas três semanas. Com a conta do mês passado e mais mil que ele já deve ter gastado nesse mês, já dá mais da metade do dinheiro que sobrou da minha mãe.

- Mas eu baixei uns filmes.

- Eu lá quero saber de... é... que filmes?

- Foi... – ele entra no quarto. – Me Atirei no Pau do Gato e Jorrada nas Estrelas.

- Mas que bosta! Eu saio pra trabalhar e tu fica vendo filmes de sacanagem.

- Eu deleto então.

- Não, não. Não deleta.

Eu sento na cadeira do computador.

- Merda, Rodolfo! que coisa branca é essa grudada no lado do computador?

- Foi mal.


continua...

preciso lembrar dos comentários?

junho 23, 2006

L.U.S.T. (9)

Anteriormente em L.U.S.T.:
Davi conhece Melissa, irmã da Katerine. Rodolfo começa a veder ecstasy por acaso. Davi e Rodolfo são uns emplastros.

me atrasei sim. mas estou aqui.

que se danem esses recados semanais...



L.U.S.T.

Nicolas Dias


Capítulo 9

- Cara, as pessoas no meio de uma festa não negociam preços – Rodolfo explica com aquela cara de quem está lendo as entrelinhas da situação. Sendo que ele nem sabe o que significa o termo “entrelinhas”.

Mas é verdade. Em festas as pessoas compram qualquer coisa a qualquer preço. Principalmente se, pra conseguir um sexo anal, estiverem tentando embebedar mulheres ou talvez homens.

- Eu vendo essa parada a um bom preço – ele fala apontando pra minha mochila, onde estão as jujubas, a cachaça e o ecstasy.

Estamos numa festa que o Rodolfo fez questão de divulgar pelo orkut. É uma daquelas festas de música eletrônica a céu aberto.

Ele deixou um scrap pra todos os seus “amigos” convidando pra lá.

Por que ele convidou todo mundo? Por que gosta deles? Não. Ele tem muitos “amigos” que nem conhece. Ele só queria vender ecstasy pra todos mesmo.

Na outra festa onde Rodolfo começou a vender ecstasy, ele arrecadou, segundo ele, um “rico dinheirinho”. Eu nem preciso fazer comentários quanto a essa expressão.

Com o dinheiro que ele conseguiu, resolveu comprar mais. Ele conseguiu com seus contatos, as pessoas de quem comprava bomba e outras coisas que podem deixar você impotente.

O negócio ia dar certo. Rodolfo sempre foi de falar com todo mundo sem que ninguém gostasse dele mesmo.

Ele deixou um scrap pra Katerine também. Com certeza ela vem. E hoje ela não me escapa.

Não sei se tem a ver com os salgadinhos que eu comi no aniversário dela, mas eu estou com um desarranjo intestinal desgraçado. Achei até melhor não comer muito antes de vir pra cá, se não eu correria o risco de não conseguir segurar a pasta aguada e fétida.

Rodolfo pega o ecstasy da minha mochila, sem pedir, e sai pra vender.

Parece que vai chover mas as pessoas não estão nem aí. A maioria está ocupada demais dançando fazendo movimentos repetitivos que parecem os sinais que os guardas de trânsito fazem.

Ninguém deve estar sóbrio.

Como eu não gosto de ser do contra, eu também bebo. Pego a cachaça de dentro da minha mochila e bebo devagar. Prefiro não estar trêbado quando Katerine chegar.

Acho que aqui o único que está visando o futuro, sou eu. Todos estoa querendo aproveitar esse momento que não vale nada. Apesar de eu ser o único que está com o olhar no futuro, o futuro para o qual eu estou olhando é daqui a cinco minutos, quando Katerine chegar.

Rodolfo continua fazendo sua parte. Fazendo com que as pessoas façam coisas das quais deveriam se arrepender no dia seguinte. Se arrepender de ter realizado suas fantasias sexuais bizarras. Ou de realizar fantasias sexuais bizarras dos outros.

Katerine está demorando. E eu continuo bebendo.

Uma garota muito boa passa com um cara na minha frente. E passa pela minha cabeça: “Velho, têm umas vadias bem gostosas por aqui, hein”.

- Quê que tu disse, doido? – grunhiu o corno que estava com a gostosa. Eu percebo que falei o que tinha pensado.

- Nada, nada.

Minha boca está fugindo de controle tenho que tomar cuidado pra não falar merda quando a Katerine chegar.

- O que tem a Katerine? – Rodolfo pergunta chegando de surpresa.

“Droga, eu falei de novo.”

- Falou o quê? – ele diz.

- Deixa pra lá...

- Por que tu tá mofino aí, cumpade?

- Eu? Mofino? – os gases pútridos que acompanham a massa fecal tentam sair por trás, mas eu uso minha força pra contrair o esfíncter e segurá-los.

- É! Tu mesmo.

Ele faz um sinal com a mão pedindo pra eu esperar, pega alguma coisa do bolso da calça e diz:

- Rapaz, toma uma dessa. É por minha conta.

Ele pega um comprimido de ecstasy e põe na minha boca. Ele encosta o dedo na minha língua e eu sinto um gosto estranho. Na hora, me vem a mente a imagem do Rodolfo coçando o rego com a mão dentro da cueca.

Eu cuspo o comprimido no chão e tento limpar a língua com as unhas.

- Não desperdiça! – ele grita.

Rodolfo pega o pontinho branco do chão e guarda junto dos outros que ainda não vendeu. E sai de novo.

Mais álcool garganta abaixo.

Katerina chega. Dessa vez ela não parece tão alegre quanto da outra. Ela nem fala com todo mundo.

Depois de mais um gole, eu vou em direção a ela pra dar um beijo no rosto e outro no vento, como dita a norma da frescura feminina.

Mas quando eu ando, perco o equilíbrio e, sem ter onde me segurar, me apoio em Katerine. E, sem ter tempo pra calcular onde me segurar, acabo me apoiando nos peitos dela. E de mão cheia.

- Opa! Desculpa! Eu ia caindo... – eu digo tentando não falar arrastado.

Não sei se ela pegou um susto ou ficou com raiva.

Acabo de perceber que bebi mais do que devia. Até por que estavaa de barriga vazia.

Mais gases se concentram na região retal. Eu uso toda minha força pra segurar. E os gases voltam pra dentro.

- Cê tá boa, hein! – pela cara que ela faz, parece que, devido a pronúncia, ela achou que eu não estava me referindo a ela, mas a uma parte do seu corpo em especial.

Essas pronúncias ambíguas...

No nosso dialeto, a expressão “me tira do sério”, em português de Portugal, significa “quer ir pra cama comigo?”. [Curiosamente isso é verdade, pessoal!]

- E a sua irmã?

- O que tem ela?

- Ela não vem?

- Não. Ela é muito boba. Muito inocente.

- Humm... ela é lésbica, né?

- O que, menino? – ela fala com tom de “o que, moleque?” – Tu tá doido? Daonde você tirou isso?

- foi ela que... – ah, pelo menos agora eu sei que ela não é lésbica mesmo.

- O que você tem hoje, hein? Quer saber? Eu vou embora.

Eu dou um passo grande pra segurar o braço dela antese que ela vá. Na mesma hora os gases chegam novamente no final do sistema digestório querendo sair. Dessa vez, com as pernas separadas, não dá pra segurar.

Shhhhh...pelo menos eles não fazem muito barulho ao sair. Na verdade se eu colocasse o dedo indicador perto da bunda, você poderia pensar que eu estou pedindo silêncio.

Eu contei seis segundos de evacuação ininterrupta dos gases. A propósito, gases quentes.

- Espera aí! – eu digo. – fica aqui comigo.

- Eu até ficaria. Mas contigo, porre como está, não.

- Espera aí. Desculpa...

Quando os gases terminam de sair dá pra ver que ela sente o cheiro. Ela faz uma cara de nojo e tampa o nariz. Pra disfarçar, eu faço uma cara de quem chupou limão e comeu pimenta ao mesmo tempo.

Dá pra ver que muita gente sentiu o cheiro.

Katerine vai e some no meio das pessoas que pelo menos metade são “amigos”do Rodolfo. Quando ela some começa a chover como acontece nos filmes sempre que acontece uma coisa ruim.

Rodolfo aparece de novo.

- E aí Rodolfo? – eu digo.

Ele estranhamente me abraça e faz aquele discurso de bêbado:

- Eu gosto de ti, cara! Tu é meu amigo! Eu te amo.

O mais estranho é que ele não bebeu nada. Acho que se eu estivesse sentindo todas as partes do meu corpo, eu sentiria a mão dele na minha bunda.

Eu pego a garrafa de cachaça e viro. Tomo gute-gute.

Existe um ditado persa que diz que a vinha fio regada com sangue de touro, de pavão e de porco. Isso quer dizer que o álcool te dá primeiro a força do touro, depois a vaidade de um pavão e, por fim, você rola no chão como um porco.

Eu bebo até cair no chão.

Quando vejo estou jogado no chão, numa possa de água marrom. Não, eu não estou falando de lama. A certos níveis de álcool no sangue seus músculos não funcionam por falta de estímulos cerebrais. Seu diafragma para e você não respira, seu coração pode parar de bater e seu esfíncter anal pode parar de contrair. Estou falando de merda diluída em água.

Rodolfo está se preparando pra fazer uma respiração boca a boca em mim.

- Hei! Sai, sai! Para com isso! – eu digo.

Estou deitado na possa fedorenta.

Eu me sento e a merda aguada escorre pelo meu cabelo, pelas minhas costas e pela minha camisa nova.

Tem um pequeno aglomerado de pessoas em volta. Katerine está lá. Todos me vêem ridículo, sentado numa possa de merda. E todo mundo descobre quem soltou aqueles gases fedorentos. Até pra eles eu sou um idiota. E ainda por cima mal educado.

continua... nua...

comentários... se acharem conveniente.

junho 09, 2006

L.U.S.T. (8)

Anteriormente em L.U.S.T.:
Davi jah nao eh tao vadio. Ele comecou a trabalhar. mas ainda eh o mesmo boboh de sempre.
[a linguagem de internet eh devido a desconfiguracao do meu teclado. Acho que isso aconteceu por causa do Dia do Demonio - seis do seis de dois mil e seis(6-6-06)]

Semana passada eu esqueci um paragrafo, mas aih vai ele...

Nao nos responsabilisamos pelos danos cerebrais provenientes da leitura desse texto.



L.U.S.T.

Nicolas Dias

...

Eu deveria avisar esses pobres coitados de que estão comprando um produto não muito confiável que poderá ser prejudicial à saúde deles. O que eu faço em relação a isso? Continuo vendendo pão pra todos.


Capítulo 8

Mais uma coisa boa no orkut (uma das únicas), é que você pode sempre ver a data do aniversário das pessoas que você esquece ou nem sabe mesmo.

Hoje é o aniversário da Katerine. 17 de fevereiro.

Como eu não tenho o telefone dela, que eu não pedi da outra vez, eu tenho que mandar apenas um scrap. Tem gente que faz isso, mesmo tendo o telefone. Nem liga pra dar os parabéns ou coisa assim. Isso demonstra a consideração que se tem pelos “amigos”.

Não foi burrice minha não pegar o telefone dela. Infelizmente eu tive que usar o papel higiênico, onde eu ia anotar o número dela, para me limpar de vômito que ela projetou em mim.

Eu entro na página de scraps dela pra deixar um lá, com a minha foto do lado, para que ela me veja mais uma vez, se familiarize ainda mais comigo, para ter uma sensação de segurança quando me ver novamente, e vejo mais do que esperava ver.

No último scrap mandado, tinha uma foto de uma garota com um fenótipo de incríveis genes recessivos. Pele branca e fina, cabelos lisos e claros, e olhos que eu não sei dizer se são azuis ou verdes. Sua aparente fragilidade faria qualquer homem se sentir forte e útil.

Do lado da foto está escrito: “melissa: parabéns, maninha! feliz aniversario!”.

É irmã da Katerine? Eu nem sabia que ela tinha irmã. Muitas características da personalidade também são genéticas, mas talvez ela tenha a inocência que eu procurava na Katrine. Inocente e frágil, é como nossos pais acham que somos, não importa quantos anos tenhamos. Eu fui criado praticamente só pela minha mãe. Talvez eu também esteja querendo cuidar de alguém. Diferente de caras que procuram, às vezes sem perceber, mulheres parecidas com suas genitoras, devido à vontade reprimida no subconsciente, de fazer sexo com suas próprias mães.

Eu clico na foto dela pra ver melhor. Ela parece ser interessante, mesmo assim eu nem leio o que ela diz de si mesma. Eu acho que a pior forma de conhecer uma pessoa é procurando saber o que ela acha de si mesma. Prefiro tomar minhas próprias conclusões.

Saber o que os outros acham também não é tão bom. Mas é menos ruim. Eu olho os depoimentos que os outros escreveram sobre ela.

Lá tem um depoimento da katerine e de mais outras duas pessoas. Os três dizem praticamente a mesma coisa: “a melissa... eu nem sei o que dizer...”.

Num mundo como este, o do orkut, onde as palavras não valem nada, é melhor não dizer nada mesmo.

O aniversário dela é dia nove de outubro. Nove de outubro aconteceu alguma coisa importante... ah! Foi o dia em que o Rodolfo espancou meus colegas no banheiro da Unama.

Ela tem dezesseis anos. Mas é muito mais bonita do que a Katerine.

Eu acho que estou bisbilhotando demais. Mas e daí? Quantas vezes eu não fiquei erectus vendo pornografias no orkut? Isso não é muito diferente.

Eu volto para a página anterior pra deixar meu scrap pra Katerine. Como sempre, deixando as coisas pra última hora. Depois de mais de meia hora pensando no que dizer, eu apenas escrevo: “nem sei o que dizer...”. As palavras aqui não valem nada, então nem diga. E na outra linha: “feliz aniversário”.

Dou uma olhada nos meus recados e vejo um scrap da Katerine me convidando para o aniversário dela. Vai ser numa daquelas recepções onde fazem colações e quinze anos.

A festa está marcada para as oito horas, e já são sete e meia.

Eu só lavo o rosto, molho o cabelo, passo o desodorante seco até fazer uma bola branca debaixo do sovaco, pego minha mochila, onde ainda está o meu caderno da Unama e minha caixa de jujubas, e saio de casa. Usando a roupa menos surrada. Com a velha mania de deixar tudo pra última hora, eu esqueço de mijar.

A mochila e as jujubas servem para eu não pagar o ônibus. Era assim que eu economizava o dinheiro do transporte antes de deixar a faculdade.

Eu pego caixa de jujubas, seguro numa mão e faço o sinal pro ônibus. Entro por trás, entrego algumas jujubas nas mãos dos passageiros, paro perto do cobrador e digo:

- Boa noite pes-soal o que eu a-cabei de en-tregar nas mãos dos senhores passageiros são os pacote da deliciosa jujuba que custa apenas cinqüenta centavo cada uma ou duas pelo um real ou três pelo um vale transporte. Eu agradeço a cooperação dos senhores que Deus abençoe a todos e uma boa viagem.

Ta certo que esses vendedores geralmente vendem doces de dia, mas, mesmo assim, tem gente que compra.

Eu desço do ônibus sem pagar.

O caminho inteiro eu fico com vontade de mijar. Mas eu acho que sou do tipo que precisa beber pra criar coragem de urinar em público.

Eu chego ao endereço. Katerine está lá recepcionado as pessoas. Recebendo as pessoas com um grande sorriso, apesar de não estar agüentando usar aquela roupa. Será que ela faz isso no aniversário todos os anos? Não sei como ela agüenta. Em certas religiões os devotos se auto-flagelam para alcançar a purificação. No meio social, isso é equivalente. As pessoas se sacrificam só pra que os outros gostem delas. Mesmo que as pessoas não gostem se si mesmas.

Eu falo com ela.

- Oi! Você está bonita – mentira. Eu prefiro ela sem toda essa maquiagem.

- Obrigada.

Depois de um sorriso diplomático e de um beijinho no rosto e outro no vento, bem diplomáticos, ela me leva pra dentro da festa.

Todo mundo bem vestido e só eu maltrapilho.

Ela me conduz pra uma mesa onde está só a garota do orkut com inesquecível fenótipo. Katerine me apresenta pra ela.

- Davi, essa é minha irmã, Melissa.

Eu finjo surpresa.

- Prazer! – eu digo.

- Melissa, esse é o Davi.

Melissa sem expressar surpresa nenhuma diz:

- Eu sei, eu vi ele no orkut ainda agora.

Será que ela viu que eu visitei o profile dela a mais ou menos uma hora?

- Ah! É? – diz Katerine. – Então conversem enquanto eu falo com os convidados.

Tem umas pessoas da minha antiga turma da Unama, mas ninguém com quem eu falava.

Um silêncio cancerígeno se faz entre nós, enquanto eu tento não olhar demais pra ela.

- E então... – ela diz – você costuma bisbilhotar pessoas que você não conhece no orkut?

É, ela viu que eu olhei o orkut dela.

Eu dou um sorriso sem graça com meu lado direito.

Outro silêncio apéptico e corrosivo.

- E aí? – ela começa de novo. – de onde você conhece s minha irmã?

- Lá da Unama. A gente era da mesma turma.

- Era? Por que não é mais?

- Por que eu saí do curso.

- Ah, ta! E o que você ta fazendo agora?

Eu ia dizer: “conversando com você”, mas eu não quis parecer tão idiota logo de cara.

- Eh... humm... é...

- Nada?

- Isso!

A partir daí a conversa foi boa. Mesmo ela me deixando sem graça às vezes. Essas brincadeiras que ela tira, demonstram que ela foi com a minha cara.

Só depois do terceiro copo de refrigerante é que eu lembro que eu tenho que ir ao banheiro. Mas eu posso ir depois. Pra não acabar com a conversa, eu deixo pra pedir o telefone dela depois.

O tempo passa e a Katerine vai de um lado pro outro, mas nunca para na mesa. É assim a festa toda.

Como já ta quase no final da festa, a gente ta há um bom tempo conversando e eu ainda não toquei no assunto “sexo”, ela pode achar que eu tenho namorada ou que sou bicha.

- Você tem namorado? – eu pergunto. Eu vi que ela não tem mesmo, mas eu quero puxar esse assunto.

- Não.

- E você pretende ter? – credo! Esse papo é canalha, agora que eu fui notar.

Eu olho pra ela e, aproveitando o papo canalha, levo o copo até a boca e faço uma cara de “quiero tu cuerpo”. Ela diz:

- Eu sou lésbica.

- Pfrrrr – o refrigerante, que aparece nos comerciais de TV, sai todo pelo meu nariz e volta pro copo. Acho que isso não constava no orkut dela.

É... acabou a festa. No sentido de que não tem mais nada pra mim e no sentido de que a festa acabou mesmo. Os convidados já estão indo embora.

É só então que Katerine senta do meu lado me dá um beijo no rosto e me diz: “Tchau!”.

- O que? – eu digo.

- Eu Já tenho que ir.

- Mas já?

- É.

- Então me dá teu telefone pra gente marcar pra sair.

Ela diz o numero.

- Espera. Deixa eu anotar.

De repente ela fica com pressa.

Eu levanto a camisa pra colocar a mão no bolso de trás e tirar o papel que estava reservado para o telefone.

Melissa se despede.

Eu pego a caneta e Katerine repete. Eu anoto o número.

Quando eu coloco o papel no bolso, ela me dá um beijo no rosto de modo que ela beija o canto da minha boca.

Eu não sei, mas eu acho que por ficar algum tempo se pegar mulher nenhuma, aquele acidental semi-beijo me faz pensar logo em sexo. E eu lembro das pornografias do orkut.

Isso é o suficiente pra me deixar erectus.

Ela vai embora.

Sobram só alguns convidados dos quais eu não conheço nenhum.

Eu lembro que preciso mijar.

Eu entro no banheiro que não tem mictório e, como eu ainda estou erectus, me viro de costas pra privada, abaixo a calça até o joelho e me sento. Eu mijo sentado.

Termino de me aliviar, levanto e dou logo a descarga.

Eu olho pra trás e vejo o papel no qual está anotado o telefone da Katerine girando junto com a água da privada. Ele deve ter ficado por cima da camisa dentro do bolso. Na hora de tirar a calça deve ter caído.

Com a calça caída até o calcanhar, eu me jogo de joelhos no chão e meto a mão na privada pra pegar o papel. Mas ele já entrou na toca do cocô.

De joelhos, na frente do vaso, e com o braço enfiado até o cotovelo dentro da água, eu perco o telefone que a Katerine acabou de me dar.

Eu vou embora.

Como é meia noite, e os vendedores de jujubas não trabalham há esta hora, eu tenho que esperar e pagar o ônibus pra voltar pra casa.


continua...


possoal comentem! os comentarios sao muito gratificantes e estimulantes.

junho 01, 2006

L.U.S.T. (7)

Anteriormente em L.U.S.T.:
Depois de sair da universidade, Davi encontra Katerine no orkut. Quando isso acontece, Rodolfo o encontra também. Como este é totalmente sem noção, decide ir morar com Davi. Diante dessa proposta, infelizmente, irrecusável, nosso pobre diabo o abriga. Houve também uma tenta tiva miserável, da parte de Davi, de ficar com Katerine.

Pessoal, essa semana não foi muito produtiva, em termos criacionais. Estou em época de provas. Por isso só deu pra postar um capítulo.



L.U.S.T.

Nicolas Dias


Capítulo 7

Infelizmente, eu não cago dinheiro. Se cagasse, estaria agora mesmo limpando a bunda pra sair pra lanchar ou algo assim. Mas estou aqui trabalhando nesse emprego de merda.

Se bem que trabalhar numa panificadora não é tão ruim. Pelo menos aqui, diferente de nos supermercados, eles não te exploram, fazendo você trabalhar de domingo a domingo, o dia todo, por apenas um salário mínimo. Eu não poderia trabalhar num supermercado por causa do meu problema de coluna. Maldita cifose.

Cifose é quando sua coluna tem um desvio anormal para os lados. No meu caso, a minha coluna tem um desvio para a direita, na região toráxica. Quando eu era menor, jogando videogame, sempre que fazia o personagem (bonequinho, como tem gente que insiste em chamar) pular, eu acompanhava o movimento dele com os ombros. Talvez isso não tenha nada a ver com o problema, mas eu sempre lembro disso.

Depois que minha mãe parou de me mandar dinheiro e morreu, não sei se foi bem essa a ordem dos fatos, eu tive que começar a trabalhar.

Quem me arrumou esse emprego foi o Rodolfo. Ele trabalha nesse mesmo lugar, só que de noite. Não, aqui não, depois das dez, não se transforma em uma casa de strip gay noturna – apesar de achar que Rodolfo, com sua aparência de prostituto diurno, levaria jeito nesse ramo. Ele trabalha como vigia.

Ele trabalha de noite e eu de dia. (rimou!)

Rodolfo está trabalhando por que também largou o curso na Unama. Na verdade não foi ele quem largou. Quando ele foi reprovado, o pai dele ficou mordido e não quis mais pagar o curso, que é ligeiramente caro.

Ele voltou a morar com o pai, depois de viver com a avó, quando já era adolescente. Ele não se dava bem com o pai. O velho era um dentista conhecido. Era um cara tradicional quanto à educação, diferente da avó, que criou Rodolfo com liberdade.

O pai dele não aceitaria ficar pagando pra ele ficar vadiando.

Segundo ele, o pai o expulsou de casa por causa disso. Mas não sei não. Como o pai era tradicional, talvez ele tenha, em certos momentos, da sexualidade do garoto, devido as roupas coloridas e o jeito dele. Se eu tivesse ele como filho, e ele ainda fosse viado, já teria dois motivos pra expulsá-lo.

Meu trabalho aqui é botar a massa na fôrma, botar a fôrma no forno e, às vezes, eu atendo as pessoas. É como acontece no orkut. Quando estou cuidando do pão, é como se eu estivesse na frente do computador, fico à vontade, poderia até ficar de cueca. Mas mas quando estou atendendo as pessoas, é como quando eu fui falar pessoalmente com a Katerine, Não sou eu mesmo, não sou ou outra pessoa, não sou ninguém. Creio que as pessoas, quando me vêem aqui, acham que não sou ninguém. Geralmente as pessoas atrás do balcão são associadas a peões, e as pessoas na frente do balcão se associam a reis ou rainhas.

No meu primeiro dia de trabalho, um cara me diz o que tenho que fazer. É o Fábio.

- Depois que a massa é feita, ela tem que descansar um pouco – ele diz. – depois disso, você tem que fazer os cortes e a modelagem, por na estufa, pra massa crescer, aí põe no forno. Quando tiver pronto, se for careca, ta pronto pra sair, se não, tem que esperar esfriar. Alguma dúvida?

Até um macaco cego, com um tumor maligno no cérebro e sem braços faria isso.

- Não.

Depois de falar a teoria ele passa pra prática.

Aqui a prática deve ser mais fácil, diferente de quando você vai falar com a mulher dos seus sonhos com a qual, efetivamente, nunca conversou. Só pelo orkut.

Falando nisso, no orkut, já me mandaram um monte de vírus. Pessoas que você conhece te mandam um scrap dizendo, “ei, o seu nome, olha essas fotos da nossa festa!”, e mandam um link, onde você só entra pra pegar um vírus.

Isso acontece por que existe uma falha na segurança do orkut e no Windows Internet Explorer, que permite que certas pessoas descubram senhas com certa facilidade. Assim elas podem entrar no orkut pela conta dos outros e fazer qual quer coisa. Bisbilhotar os outros, assumir uma suposta homossexualidade, cancelar contas e mandar vírus para seus “amigos”. É isso ou os idiotas salvam suas senhas quando acessam a internet de lan-houses. Só informação adicional.

Rodolfo queria que o dono daqui colocasse umas câmeras de vídeo para a segurança, mas o dono também é um cara tradicional. Prefere não usufruir desses aparatos tecnológicos.

Como não tem ninguém nos supervisionando, ele também fica à vontade.

Ele coça a bolsa escrotal arrastando o dedo indicador e o polegar na calça, pra friccionar o jeans contra o saco – infelizmente a gente repara essas coisas de vez em quando. Assim a coçada é mais satisfatória. Ele chega até a se inclinar um pouco pra frente. Tira o cigarro da boca, usando o dedo indicador e o dedo do cotoco, e aponta para a massa de pão na fôrma. O movimento da mão é rápido e faz as cinzas do cigarro caírem na massa.

- Essa – diz ele sem soltar a fumaça que puxou – é a massa já descansada – ele tenta limpar a massa passando o dedo indicador e o polegar pela cinza, mas só espalha ela ainda mais. E da boca dele sai um “merda!” junto com um pouco de fumaça.

Ele corta a massa dando mais ou menos o formato do pão.

- Você corta e põe na estufa – com o cigarro na boca ele põe a forma na estufa. – Pra tirar os pães do forno você precisa de luvas.

Não me diga.

Ele põe duas luvas de cozinheiro, que parecem de esquimó, mas são usadas por padeiros. Abre um forno, tira o cigarro da boca, colocando no único espaço das luvas, entre o indicador e o polegar, e tira a fôrma que estava lá com os pães prontos.

Antes de conseguir colocar a fôrma em cima da mesa, a mão na qual ele segura o cigarro, se atrapalha e solta a fôrma. Os pães caem todos no chão. Alguns ficam em cima do pé dele.

Ele tira o pé de baixo dos pães e eles caem no lugar onde seu pé estava. É quando ele percebe que tinha pisado nas fezes de algum animal. Um cachorro ou talvez um mendigo.

Ele põe os pães de volta na fôrma e coloca a fôrma na mesa.

- Não tem problema quando isso acontece? – eu pergunto.

- Isso o quê?

- Nada.

...

Quando vou atender as pessoas eu tenho que sorrir com a metade do rosto, mostrando os dentes que me sobram na boca. Do mesmo jeito que estou na foto do orkut.

No meio social, as pessoas vivem falando mal, envenenado as outras por trás, enquanto na frente dão meios sorrisos e desejam bom dia. A diferença é que aqui na panificadora nós fazemos isso literalmente.

Se o pão da santa ceia tivesse sido comprado aqui, acho que haveria risco de Jesus ter morrido de novo.

Um cliente feliz aparece e, como num daqueles links cheios de vírus que mandam pelo orkut, eu vendo aquele pão cheio de cinzas de cigarro, poeira do chão e de coliformes fecais.


Continua...

Pois é pessoal, comentem.
Semana que vem tentarei voltar ao ritmo, tanto no número de capítulos quanto no de merdas por linha.

maio 25, 2006

L.U.S.T. (5, 6)

Anteriormente em L.U.S.T.:
Davi perde sua bolsa de estudos e passa a viver em casa fazendo, praticamente, nada.
Sua maior ocupação (se é que se pode chamar assim) é ver o orkut. Isso mesmo amiguinhos, Davi entra no mundo do orkut, o que o diexa mais sujeito ainda às calamidades insólitas da roleta russa do infortúnio.

Os personagens da história a seguir só existem na mente doentia do autor. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


L.U.S.T.

Nicolas Dias


Capítulo 5

Como se diz, coisa ruim chama coisa ruim. Uma desgraça vem atrás da outra. É uma reação em cadeia, um efeito dominó... já deu pra entender.

Quando vou ao banco, retirar dinheiro para fazer as compras, vejo que minha mãe não depositou dinheiro nenhum na minha conta.

Dizem também que “notícia ruim vem voando”. Essa nem sempre é verdade. Do mesmo modo que minha mãe não soube que eu perdi a bolsa de estudos e larguei o curso, eu não soube que ela estava no hospital na fase terminal de um câncer.

Só quando eu liguei para o celular dela, pra saber por que não tinha mandado o dinheiro, é que uma mulher, para a qual meu pai tinha vendido o telefone, me deu a notícia de que ela tinha falecido.

Mas como eu não soube nem que ela tinha câncer?

Ela deve ter descoberto quando eu já estava morando em Belém. Deve ter descoberto em uma fase irreversível e devia estar conformada com isso.

Se eu não tivesse omitido o fato de ter saído da universidade, pelo menos teria falado com ela mais uma vez. E eu nem a visitei nas minhas férias.

Não me leve a mal, mas eu fico feliz de ter, ao menos, guardado o dinheiro que ela mandou nesses meus meses de vadiagem. Mesmo assim preciso arrumar um emprego por aqui já que meu pai nem quer saber de mim.

Ela morreu sem ver o sonho dela realizado: seu único filho formado. Dr. Davi Castro.

Pelo menos meu pai teve um sonho realizado: ver minha mãe morta.

Quando estou em meu “apertamento”, desfrutando das delícias de morar sozinho, e maravilhando-me com as inutilidades diárias dos aparelhos telecognitivos, ou seja, estou pelado em casa assistindo “vale a pena ver de novo”, ouço a campainha tocar.

Me visto rapidamente, resmungando e me perguntando quem seria, mesmo sabendo que só poderia ser o dono do prédio, quem me alugava essa espelunca.

Eu abro logo a porta, esperando ver a cara-de-seu-barriga do dono, pois não tem um maldito olho mágico nela. E quem entra empurrando a porta com duas malas nas mãos é, nada mais nada menos do que o Rodolfo.

Então você se pergunta: como é que ele foi parar lá?

Eu sei. Pode me chamar de idiota. Mas eu tinha a idéia de que quanto mais eu falasse de mim, mais as pessoas iam achar que eu era um cara verdadeiro, um livro aberto, como dizem. Mais os meus “amigos” confiariam em mim. E por isso eu coloquei, no orkut, endereço o endereço da minha casa. Burro.

Além de uma coisa ruim ser seguida de outra coisa ruim, logo depois de uma coisa boa sempre acontece uma desgraça.

Quando eu adicionei Katerine, Rodolfo me achou.

Ele vai colocando as malas no chão da minha sala que não é minha, perto dos móveis que não são meus e eu vejo de perto novamente aquelas orelhas deformadas que parecem ser feitas com a pele solta do pescoço de um velho.

A orelha dele é assim de tanto levar porrada nela. É um pit-boy um daqueles caras que lutam Jiu-jitsu e querem dar porrada em todo mundo quando estão porres. As cartilagens, como a da orelha, não se regeneram muito bem. Quando as lesões são grandes se formam cicatrizes de tecido conjuntivo no lugar de cartilaginoso. Isso acontece devido a um problema nas células. É por isso que a orelha dele tem esse aspecto de rosa feita com papel higiênico dobrado. No caso do Rodolfo, papel higiênico usado.

Outro problema estranho relacionado às células é chamado de situs inversus. Por causa da deficiência dos cílios das células, os órgãos dos afetados não tomam suas posições corretas na hora da formação. Deve ser interessante, o fígado do lado direito, o apêndice em cima do umbigo, etc. só informação adicional.

Rodolfo larga as coisas, me dá um abraço e diz:

- E aí, Davi? Tudo bem?

As pessoas podem ser até suas piores inimigas, mas quando precisam de um favor, são agradáveis o quanto for possível.

- Ta fazendo o que da vida?

Antes que eu respondesse, coisa que eu nem queria fazer mesmo, ele muda de assunto:

- Cara... – Já sei que ele quer um favor – Tem uma vaga aí? Preciso de um lugar pra dormir.

Ele pode estar amável do jeito que for, mas ele também pode mudar de humor de repente. Como aconteceu quando ele me arrancou cinco dentes do lado esquerdo. Por isso respondo:

- Tem...

- Ah! Ótimo! E tem comida aí? – ele pergunta. Eu ainda estou balançando a cabeça respondendo a primeira pergunta. – Estou com fome.

Capítulo 6

É claro que, depois do “Oi! Quanto tempo!”, você tem que convidar a garota dos seus sonhos pra sair. Mas nunca deixe ela escolher o lugar.

Não sou muito de festas em boates e tal, mas, infelizmente, foi esse o lugar que katerine escolheu para nos encontrarmos.

Fico esperando-a na parte mais calma da festa, onde se encontram os excluídos. As feias que não têm amigas gostosas e os nerds. Rodolfo vai dar uma volta no meio dos empolgados. As pessoas fazem movimentos repetitivos, como se estivessem apitando uma partida de futebol, onde os jogadores são extravagantemente mal educados.

Ela aparece, bem apresentável, com suas características fenotípicas dadas pelos genes recessivos. Deus abençoe os genes recessivos.

Fala com as pessoas como se conhecesse todos da festa. Então chega até mim e me dá um beijo de um lado do meu rosto e do outro e encosta, do outro lado, sua bochecha na minha beijando o vento. Coisas de menina. E diz:

- E aí, Davi? Diz, o que você anda fazendo? – ela quer conversar com todo esse barulho?

Sem querer responder e dizer que estou vadiando em tempo integral e sobrevivendo com o dinheiro que restou da minha mãe que morreu, faço uma pausa, no mínimo, idiota. Aquele negócio de ser desinibido é mais difícil do que na frente do computador. Não consigo ser outra pessoa, muito menos ser eu mesmo. Eu, finalmente, digo:

- Diga você o que está fazendo! – esse você, usado como eu usei, indica que eu estou aplicando nela.

- Eu perguntei primeiro.

Eu aceito responder, mas antes eu acabo fazendo uma pausa, no mínimo, imbecil.

- Ehh... eu... é... eu estou projetando coisas para cultivar planos para o meu futuro.

- Ah, ta!

Eu acho que ela não entendeu. É incrível como as pessoas não admitem quando não sabem algo. Acho que é assim que surgem os dogmas das religiões. Alguém faz uma pergunta a um líder religioso. O cara não sabe responder a pergunta sobre a própria religião, e acaba dizendo que aquela é uma coisa inquestionável. Que aquilo “é assim porque é”. Se você quer religião, esqueça a inteligência. Se você quer ter vida social, como as pessoas querem, esqueça religião e inteligência.

- Quer dizer, merda nenhuma? – ela diz.

Ela entendeu sim. Às vezes superestimamos a burrice das pessoas.

- Eu, ao contrário de certas pessoas, – ela continua apontando pra mim com o lábio inferior – ainda estou na universidade.

Essa foi uma piadinha daquelas que as pessoas fazem quando têm intimidade entre si. Eu sorrio com o lado direito do rosto.

Um cara chega, dá um beijo no rosto dela e deixa com ela um copo de cerveja. Eu não sabia que ela bebia. Não sei se isso se deve à falta de religião ou de inteligência.

Sabe? Os gregos eram provavelmente uns alcoólatras, qual quer coisa era motivo de uma bacanal. Engraçado, eles bebiam em nome dos deuses, mas hoje todos bebem para se satisfazer ou satisfazer aos outros (pense em “beber socialmente”). Uma das comemorações dos gregos era o primeiro porre de uma criança, aos quatorze anos. Hoje em dia as pessoas têm até filhos nessa idade. Então me pergunto: por que nunca fiquei porre antes? Talvez nunca tenha precisado.

Pego o copo e, olhando para ela, dou só uma bicada. Estendo a mão para devolver. Ela diz:

- Fica com esse. Lá vem outro pra mim.

E outro cara dá um beijo no rosto dela e deixa outro copo.

Ela bebe a metade do copo.

- Pois é... – eu digo. E fico mexendo a cabeça pra frente e pra trás como um peru.

Penso que a gente está numa festa, mas talvez ela não queira ficar com ninguém. Mesmo assim vale a pena tentar ficar com ela logo.

Mas preciso criar coragem pra avançar. Acho que beber ajudaria a criar coragem. Esse seria um bom motivo pra beber, eu acho. As pessoas bebem pra criar coragem pra fazer várias coisas. Pra brigar, pra fornicar extraconjugalmente, pra mijar em público e até pra dar, isso mesmo, é nesse sentido que eu estou falando.

Ao menos eu vou beber por um bom motivo. É um motivo egoísta, mas é bom só por que não é ruim. Um amigo meu, não tinha coragem pra aprender a dirigir. Tinha medo de que houvesse um acidente e ele morresse no carro. Ele bebeu pra criar coragem. Esqueceu do cinto. Pelo menos, quando ele bateu o carro, atravessou o pára-brisa e não morreu dentro do carro.

Eu termino de beber o copo, mas acho que não é o suficiente para me dar coragem. Decido comprar outra cerveja. Peço pra ela esperar e vou lá.

Rodolfo fala com Katerine e eles trocam alguma coisa. Ela põe o que recebeu na boca.

Quando volto, Katerine está ficando com outro cara.

Acho que agora ela se tornou um motivo pra beber. Não pra criar coragem, mas para atenuar meu sofrimento de, mais uma vez, estar sozinho. Não sei por que, mas eu lembro da minha mãe agora.

Rodolfo chega até mim, e mostra uma coisa quase sem tirar do bolso. Um frasco em forma de cilindro cheio de pílulas brancas.

- Que é isso aí? – eu pergunto.

Ele me olha com uma cara de quem acha que é mais esperto que alguém e diz:

- Isso é ecstasy, meu filho.

Foi isso que ele deu pra ela.

- Onde é que tu arranjou isso?

- Numa outra festa aí.

Flashback.

Rodolfo estava com um colega numa festa. Esse colega estava vendendo ecstasy. Mas o bocó caiu na desgraça de ficar viciado no produto de sua venda.

Muita gente acha que, por ser consumido apenas em fins de semana, o ecstasy não vicia.

Ele, além de te deixar ligado, aumenta a temperatura do seu corpo, faz com que você não tenha vontade de mijar. Você poderia beber vários litros de água sem mijar uma gota.

Uma pessoa pode ficar intoxicada se beber quinze litros de água sem botar nada pra fora. E, calamitosamente, isso aconteceu com o colega do Rodolfo.

O doido cai desmaiado no chão com a barriga inchada. Rodolfo tenta acordá-lo, mas ele não responde. Rodolfo olha para um lado e depois para o outro, como se tivesse achado uma moeda que alguém deixou cair, e põe a mão no bolso do cara. Depois de ter achado uma coisa roliça, mas não o que procurava, procura mais um pouca e pega o vidro de ecstasy que o doido tava vendendo.

Na festa.

- E por que tu tá me mostrando isso? – pergunto.

- Eu quero saber se tu tá afim de comprar – diz ele dando de ombros.

Quando olho pra Katerine, ela já está ficando com outro cara que não era o primeiro.

Eu tive várias mulheres na minha vida. Tudo bem, nenhuma sabia disso. Mas Katerine, a mulher que ficou depois que minha mãe morreu, com seus adoráveis genes recessivos, está se entregando às vicissitudes da alcoolfilia, da toxicomania, e da promiscuidade.

Eu tomo, como a mamãe dizia, “gute-gute” o segundo copázio de cerveja. Como o meu corpo não é um dos mais avantajados e eu tomo rápido, o efeito do álcool aparece logo.

Depois de Katerine ter ficado com o quarto cara na festa, ela vem até mim de novo. Andando lentamente e cambaleando um pouco. Falando mais arrastado do que coxa de bailarina de lambada.

- Ei! Tu sssumiu! Onde é que tu tava? – ela diz.

- Fui bem ali.

- Eu senti tua falta.

Olha esse papo.

- O quê? – ela pergunta.

Eu falei isso ou só pensei?

Acho que falei.

- Nada.

Ela põe os braços em volta do meu pescoço e me olha. Na verdade não dá pra saber se ela está olhando pra mim ou pra alguém atrás de mim.

Eu ponho as minhas mãos na cintura dela.

Seus olhos vão se fechando, seu rosto se aproximando e sua cabeça se curvando, como fazem as cabeças das atrizes peitudas das novelas na hora do beijo. Eu curvo minha cabeça na posição correta.

Com minhas mãos em sua cintura, sinto seu abdômen contrair. Ela põe a língua um pouco pra fora e um jato de vômito voa no meu rosto.

Eu já não estava passando muito bem. Com vômito na cara não dá pra agüentar. Eu vomito em cima dela.

Rodolfo que não tinha nada a ver com a estória, mas estava assistindo tudo de perto, vomita em cima de nós dois.



Continua...

por hoje...